A entidade municipalista sustenta, na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI), que trechos da norma ultrapassam limites constitucionais ao impor restrições ao direito de defesa, ao devido processo legal e a outras garantias fundamentais. No pedido, os prefeitos solicitam a suspensão imediata de artigos da lei até que o plenário da Corte analise o mérito da questão.
A legislação em discussão foi criada com o objetivo de intensificar o enfrentamento a facções criminosas, milícias e grupos paramilitares, ampliando instrumentos de investigação e endurecendo punições. No entanto, segundo a ANPV, ao menos 19 pontos da lei apresentam vícios que podem comprometer o equilíbrio entre segurança e direitos individuais.
Entre os aspectos mais criticados está a previsão de penas que podem chegar a até 60 anos de prisão, acompanhadas de regras mais rígidas para progressão de regime. A lei estabelece que o condenado precise cumprir 85% da pena antes de ter direito à progressão, além de vedar o livramento condicional em determinadas situações. Para a entidade, essas medidas, na prática, inviabilizam a ressocialização e criam um sistema penal ainda mais restritivo.
Outro ponto sensível levantado pelos prefeitos é a ampliação das hipóteses de prisão preventiva, que, segundo a ação, passa a ocorrer sem critérios suficientemente individualizados. A crítica central é de que a medida pode levar a prisões prolongadas antes mesmo de uma condenação definitiva, ferindo o princípio da presunção de inocência.
A ANPV também contesta a possibilidade de confisco e venda antecipada de bens de investigados antes do trânsito em julgado. Para a entidade, esse mecanismo pode resultar em prejuízos irreversíveis caso o acusado venha a ser absolvido no futuro.
No campo das investigações, a lei amplia o alcance de monitoramento e coleta de informações, incluindo comunicações que, segundo a associação, podem atingir até mesmo a relação entre advogados e clientes. Esse ponto é tratado como especialmente delicado, por envolver o direito à ampla defesa e ao sigilo profissional.
Além disso, a ação questiona mudanças na execução penal, como a limitação de benefícios e a facilitação da transferência de presos para presídios federais, medidas que, segundo a entidade, precisam ser analisadas com maior cautela sob a ótica constitucional.
Em tom crítico, a ANPV afirma que o conjunto das medidas não apenas combate o crime organizado, mas também “compromete direitos fundamentais”, criando um cenário de insegurança jurídica. A entidade defende que o enfrentamento à criminalidade deve ocorrer dentro dos limites estabelecidos pela Constituição, sem abrir precedentes para excessos.
Agora, caberá ao ministro relator analisar o pedido de liminar, que pode suspender imediatamente os trechos questionados. Caso a medida seja concedida, os dispositivos deixam de ter efeito até o julgamento definitivo pelo plenário do STF. Se negada, a lei continuará em vigor enquanto a Corte analisa o mérito da ação.
O caso promete gerar forte repercussão nos meios jurídicos e políticos, reacendendo o debate sobre até onde o Estado pode ir no combate ao crime organizado sem comprometer garantias essenciais do cidadão.