É curioso observar que, quando os interesses do próprio Parlamento entram em pauta, a velocidade costuma ser impressionante. A tramitação ganha ritmo, os acordos aparecem e as votações acontecem em tempo recorde. Já quando os temas envolvem milhões de brasileiros, o roteiro muda completamente: audiências, pedidos de vista, negociações intermináveis e, por fim, o velho argumento da falta de tempo. O calendário acaba servindo como justificativa perfeita para adiar decisões difíceis.
O caso da escala 6x1 é emblemático. Há meses o debate mobiliza trabalhadores, sindicatos, empresários e especialistas. Uns defendem melhores condições de trabalho; outros alertam para os impactos econômicos. Independentemente do lado escolhido, o que a sociedade espera é uma definição. O pior cenário para qualquer país é aquele em que as decisões simplesmente não acontecem. A insegurança jurídica interessa a quem?
A PEC da Segurança Pública também ficou estacionada. Em um país que convive diariamente com altos índices de violência, deixar uma proposta dessa magnitude para depois transmite uma mensagem preocupante. Segurança pública não entra em recesso. O crime organizado não suspende suas atividades em julho. As famílias brasileiras continuam convivendo com medo enquanto o debate político fica para outro momento.
E há ainda a discussão sobre a chamada taxa das blusinhas. Milhões de consumidores acompanham o assunto porque ele mexe diretamente no bolso de quem compra produtos importados pela internet. Pequenos empreendedores, comerciantes e consumidores aguardam uma posição definitiva. Em vez disso, encontram mais um capítulo da novela legislativa brasileira.
O recesso, previsto constitucionalmente, é legítimo. O problema não é o direito ao descanso dos parlamentares. O problema é chegar a ele deixando uma pauta tão extensa e tão importante acumulada. Afinal, de que adianta discursos inflamados nas redes sociais e nas tribunas se, na hora de votar projetos que afetam a vida da população, tudo fica para depois?
O segundo semestre promete ser ainda mais complicado. Com as eleições dominando o ambiente político, cresce o risco de que pautas impopulares ou polêmicas continuem sendo empurradas para a frente. E quando a política entra em modo eleitoral, a prioridade deixa de ser governar para se tornar conquistar votos.
No fim das contas, o brasileiro continua fazendo a sua parte. Trabalha, paga impostos, enfrenta filas, convive com a insegurança e espera que seus representantes entreguem resultados. Já o Congresso fecha as portas por algumas semanas deixando uma pergunta inevitável: se os problemas do país não podem entrar em recesso, por que as soluções insistem em entrar?