Na política pernambucana, a memória parece curta quando a conveniência bate à porta. Durante a campanha eleitoral, Raquel Lyra foi alvo de ataques e tentativas de associação ao bolsonarismo e à extrema direita por adversários ligados ao campo de João Campos. Agora, depois das urnas, o cenário é outro: o posicionamento da governadora passou a despertar interesse nas articulações políticas nacionais.
João Campos fez associações públicas entre Raquel e o bolsonarismo, inclusive em declarações noticiadas pelo Diario de Pernambuco. Em setembro, a disputa também chegou à Justiça Eleitoral, que determinou a retirada de uma publicação de um blogueiro alinhado ao campo do PSB por associar a governadora a métodos nazifascistas. A decisão apontou que o conteúdo ultrapassava os limites da crítica política.
Diante desse histórico, uma pergunta é inevitável: se Raquel era apresentada como representante de um campo político que seus adversários combatiam, por que agora sua posição merece tanta atenção?
A política é feita de alianças, negociações e mudanças de cenário. O problema começa quando o discurso de campanha aponta uma direção e a conveniência eleitoral parece empurrar os mesmos atores para outra. Quem passou meses tentando enquadrar uma adversária em rótulos ideológicos não pode esperar que ela simplesmente se alinhe quando seu apoio se torna interessante.
Raquel Lyra não tem obrigação de escolher um lado para satisfazer as expectativas de terceiros. A governadora pode dialogar, negociar ou permanecer neutra. Essa decisão pertence a ela, e não a quem imagina ter direito de cobrar uma posição por interesse eleitoral.
Neutralidade não é covardia, muito menos favor a adversário. É também uma posição política.
O que não combina é transformar uma adversária em símbolo de tudo aquilo que se combate e, depois, esperar que ela esteja disponível quando a matemática política exigir novas alianças.
Na política, mudar de posição faz parte do jogo. Mas coerência continua sendo uma cobrança legítima. Quem quer diálogo precisa começar respeitando a autonomia do outro.
Raquel tem o direito de ficar neutra. Apoio não se arranca no grito, não se exige por conveniência e muito menos se conquista com rótulos.
Edney Souto | Blog do Edney — A notícia verdade.