A política é, talvez, o único ambiente onde o "nunca" costuma durar até a próxima eleição. O anúncio de Luciano Bivar (MDB) como primeiro suplente de Humberto Costa (PT) não é apenas uma composição de chapa. É um retrato da transformação da política brasileira e um convite à reflexão: afinal, até onde vão as convicções e onde começa o pragmatismo?
Durante décadas, Luciano Bivar e Humberto Costa representaram mundos políticos quase antagônicos.
Humberto Costa construiu sua trajetória dentro do Partido dos Trabalhadores. Foi um dos fundadores do PT em Pernambuco, ministro do governo Lula, senador da República e defensor histórico das bandeiras da esquerda. Sua vida pública sempre esteve ligada ao fortalecimento das políticas sociais, ao protagonismo do Estado e ao projeto político liderado por Lula.
Luciano Bivar escreveu uma história completamente diferente. Empresário, defensor do liberalismo econômico, fundador e presidente nacional do PSL por mais de vinte anos, foi justamente ele quem entregou a Jair Bolsonaro o partido que serviria de plataforma para a vitória presidencial de 2018. Tornou-se símbolo da direita liberal e comandou uma legenda que, naquele momento, representava tudo o que o PT combatia.
Não eram apenas adversários.
Representavam visões de Brasil que pareciam inconciliáveis.
De um lado, o partido que governou o país por mais de uma década.
Do outro, o homem que comandou a legenda responsável pela maior derrota eleitoral da esquerda desde a redemocratização.
Agora, ambos aparecem na mesma chapa.
Quem mudou?
Bivar?
Humberto?
Ou foi a política que mudou?
Talvez a resposta seja ainda mais desconfortável: a política apenas revelou aquilo que muitos preferem não admitir. Na hora de disputar o poder, a ideologia frequentemente deixa de ser o principal critério. O que passa a valer é a capacidade de somar forças, ampliar alianças, ocupar espaços e vencer eleições.
Isso não significa que alianças amplas sejam ilegítimas. Democracias são construídas por coalizões. O problema surge quando o discurso do passado entra em choque com as escolhas do presente.
Durante anos, petistas apontaram o PSL como símbolo do bolsonarismo.
Durante anos, setores da direita criticaram duramente o PT e seus governos.
Hoje, um dos fundadores do PSL poderá assumir uma cadeira no Senado justamente como suplente de um dos maiores líderes petistas do Nordeste.
É impossível ignorar a força simbólica dessa imagem.
A política ensina, mais uma vez, que adversários podem se transformar em aliados quando os interesses convergem.
Não é a primeira vez que isso acontece, nem será a última.
Mas cada novo episódio desgasta um pouco mais um ativo precioso da democracia: a confiança do eleitor.
O cidadão comum acompanha essas mudanças e inevitavelmente faz uma pergunta simples: se ontem diziam que eram incompatíveis e hoje caminham juntos, o que realmente era convicção e o que sempre foi estratégia?
Essa pergunta não vale apenas para Humberto Costa ou Luciano Bivar.
Vale para praticamente todos os partidos brasileiros.
A direita já se aliou à esquerda.
A esquerda já governou com partidos conservadores.
O centro já apoiou projetos completamente opostos em eleições diferentes.
As fronteiras ideológicas continuam existindo nos discursos, mas se tornam muito mais flexíveis quando o objetivo é construir maiorias.
Talvez o eleitor esteja entrando em uma nova fase da política brasileira. Uma fase em que já não basta ouvir discursos inflamados contra adversários. É preciso observar quem estará sentado ao lado quando as convenções terminarem.
No fim das contas, essa chapa talvez não diga apenas quem disputará uma vaga no Senado.
Ela revela uma verdade muitas vezes incômoda: na política brasileira, os adversários de ontem podem ser os aliados de hoje, e os discursos mais duros costumam ser os primeiros a ceder quando a matemática eleitoral entra em cena.
Quem diria?
O fundador do partido que levou Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto poderá chegar ao Senado pelas mãos de um dos mais históricos líderes do PT em Pernambuco.
Não é apenas uma aliança.
É o retrato de uma política onde as ideologias continuam importantes, mas raramente são maiores do que o projeto de permanecer no poder. É isso!