Por Edney Souto | Blog do Edney
A política tem uma memória que incomoda. O poder muda de mãos, os aliados trocam de lado, os discursos perdem a validade e aquilo que ontem era apresentado como uma demonstração de patriotismo pode se transformar, no dia seguinte, em uma pergunta incômoda. É justamente nesses momentos que a história começa a separar o discurso da atitude.
Lula enfrentou a prisão, atravessou um dos períodos mais difíceis de sua trajetória política, recuperou seus direitos políticos e voltou às urnas. Em 2022, derrotou Jair Bolsonaro. Em 2026, enfrentou novamente uma disputa presidencial, desta vez contra Flávio Bolsonaro, e conquistou mais uma vitória. No domingo, 25 de outubro, recebeu 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos, contra 59.826.041 votos de seu adversário, que alcançou 48,21%. A diferença foi superior a 4,4 milhões de votos.
É um percurso que pode ser discutido, criticado e questionado em diferentes aspectos, mas que contém um dado político incontestável: Lula voltou a se apresentar aos eleitores e submeteu seu destino à decisão das urnas. Depois de ter sido preso em 2018, teve suas condenações da Justiça Federal de Curitiba anuladas pelo Supremo Tribunal Federal, por questões de competência, e recuperou a elegibilidade. Em vez de abandonar a disputa política, voltou a pedir votos e venceu duas eleições presidenciais consecutivas, em 2022 e 2026.
Do outro lado, o resultado eleitoral produziu uma cena que entrou imediatamente para o debate nacional. Flávio Bolsonaro, senador e candidato derrotado à Presidência, viajou para os Estados Unidos na terça-feira, 27 de outubro, menos de 48 horas depois da eleição. A informação foi confirmada à Reuters por um aliado próximo do parlamentar e por uma fonte do governo norte-americano. Segundo o relato, ele chegou à Flórida.
O episódio ganhou ainda mais repercussão porque, na véspera, Flávio havia afirmado que não pensava em deixar o Brasil. A reportagem da Reuters informou também que o senador não cumpriu o prazo estabelecido pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, para entregar seus passaportes à Polícia Federal. A decisão judicial citava risco de fuga e o poder econômico dos envolvidos no contexto da medida.
A sequência dos acontecimentos é o que torna a história politicamente explosiva. Primeiro, a campanha. Depois, a derrota. Em seguida, a declaração de que não sairia do país. E, por fim, a confirmação da viagem para os Estados Unidos.
Não é necessário inventar fatos para compreender o tamanho do desgaste político. Basta colocar as declarações e os acontecimentos lado a lado.
Durante a campanha, o discurso patriótico ocupou espaço importante na disputa. A bandeira brasileira, o amor à pátria e a defesa dos interesses nacionais foram apresentados como elementos centrais do projeto político bolsonarista. Milhões de brasileiros confiaram nesse discurso e depositaram seus votos em Flávio Bolsonaro. O candidato terminou a eleição com quase 60 milhões de votos, uma votação expressiva que lhe confere representatividade política e uma responsabilidade proporcional diante de seus eleitores.
Mas a pergunta permanece: o que significa defender o Brasil quando o resultado das urnas não corresponde àquilo que se desejava?
Viajar para outro país não é, por si só, prova de culpa ou covardia. Todo cidadão tem direitos, e qualquer medida judicial deve ser cumprida e discutida pelos meios legais. O problema político está na contradição entre uma declaração pública de que não deixaria o Brasil e a posterior confirmação de sua saída, especialmente em um momento de tensão institucional e questionamentos sobre o resultado eleitoral.
Quem pede votos em nome da pátria precisa compreender que o compromisso com o eleitor não termina no fechamento das urnas. A responsabilidade pública continua depois da derrota, quando não existem mais palanques para sustentar o discurso e quando as promessas precisam ser confrontadas com a realidade.
O episódio também provocou uma reação direta de Lula. Na terça-feira, dia em que completou 81 anos, o presidente classificou a saída de Flávio como um ato vergonhoso e afirmou que o senador deveria permanecer no Brasil para responder às questões que envolvem seu nome. A declaração foi publicada pela Reuters.
A viagem ainda expôs dificuldades dentro do próprio campo bolsonarista. Segundo a Reuters, o senador Rogério Marinho, coordenador-geral da campanha de Flávio, declarou que estava surpreso e que não sabia onde o candidato se encontrava. Marinho afirmou que esperava que o senador assumisse o papel de liderança da oposição, considerando a expressiva votação recebida. Um aliado informou à agência que Flávio pretendia dar um tempo.
É aí que a discussão deixa de ser apenas sobre uma viagem internacional e passa a envolver o futuro da oposição brasileira. Quase 60 milhões de votos não são propriedade de uma família, nem autorização para transformar um projeto político em patrimônio particular. São votos de cidadãos que esperam representação, posicionamento e responsabilidade.
Flávio ainda não havia reconhecido oficialmente a derrota quando a Reuters publicou a notícia da viagem. Segundo a agência, ele havia falado em buscar a anulação do resultado e, posteriormente, em pedir a cassação da chapa de Lula ao Tribunal Superior Eleitoral. Na segunda-feira, 26 de outubro, o Partido Liberal declarou reconhecer a vitória do petista.
Enquanto isso, Lula se preparava para iniciar um novo mandato, conquistado democraticamente, com uma votação superior à que recebeu em 2022. A disputa de 2026 também entrou para a história por garantir ao petista um quarto mandato presidencial, feito inédito no país.
É impossível olhar para essas duas trajetórias recentes sem perceber o contraste político. Lula foi preso, perdeu temporariamente seus direitos políticos, recuperou a elegibilidade e voltou a disputar a Presidência. Flávio Bolsonaro pediu votos, foi derrotado e, poucos dias depois, teve sua ida aos Estados Unidos confirmada por fontes ouvidas pela imprensa internacional.
A comparação não apaga as diferenças entre os casos nem dispensa a análise jurídica de cada situação. Mas permite uma reflexão sobre liderança, responsabilidade e coerência. Na política, coragem não significa concordar com decisões judiciais ou aceitar passivamente críticas. Significa enfrentar as consequências dos próprios atos dentro das regras democráticas, sem transformar a dificuldade em motivo para abandonar as responsabilidades assumidas diante do eleitor.
A família Bolsonaro conhece esse roteiro. Depois da derrota de Jair Bolsonaro para Lula em 2022, o então presidente viajou para os Estados Unidos antes do fim de seu mandato e retornou posteriormente ao Brasil. Anos depois, foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e três meses de prisão por sua participação na trama golpista, decisão que pertence a um processo distinto dos fatos relacionados à viagem de Flávio. A repetição de episódios de afastamento do país após derrotas eleitorais inevitavelmente alimenta o debate público sobre como a família lida com os resultados das urnas.
O patriotismo não pode ser tratado como um figurino que se veste durante a campanha e se guarda quando a realidade muda. A bandeira brasileira não deveria servir apenas como cenário para discursos, assim como o amor à nação não deveria ser utilizado somente como instrumento de mobilização eleitoral.
O Brasil precisa de lideranças que entendam que a democracia não funciona apenas quando o resultado agrada. O direito de contestar decisões existe, desde que exercido pelos meios legais. A oposição é necessária, os milhões de eleitores de Flávio merecem representação e o país não pode reduzir uma disputa tão expressiva a uma guerra permanente entre famílias políticas.
Mas a responsabilidade também precisa ter endereço. Quem se apresenta como alternativa para governar o país precisa estar disposto a responder pelas próprias decisões, inclusive quando perde. A vitória traz prestígio; a derrota exige maturidade. E nenhuma das duas elimina o dever de prestar contas à sociedade.
Na política, o ditado continua atual: rei morto, rei posto. Quando o poder muda de mãos, muitos dos que ontem juravam fidelidade começam a procurar novos caminhos. Os discursos mudam, as alianças se reorganizam e a fotografia do passado passa a incomodar aqueles que preferem esquecer o que disseram.
Só que existe uma diferença entre adaptar estratégias e abandonar responsabilidades. A primeira é parte do jogo político. A segunda pode comprometer a confiança pública.
A história não se escreve apenas com os nomes dos vencedores. Também registra os gestos de quem permaneceu, as decisões de quem enfrentou as consequências e as contradições de quem prometeu uma coisa e fez outra.
Lula voltou às urnas e venceu novamente. Flávio Bolsonaro, depois de perder a eleição e afirmar que não deixaria o país, teve sua viagem aos Estados Unidos confirmada. São fatos que ajudam a compreender o momento político brasileiro e que continuarão a ser discutidos muito depois de encerrada a apuração.
A história não perdoa nem os covardes, nem esquece os corajosos. A frase não precisa ser uma sentença antecipada sobre ninguém. É um alerta para toda liderança que confunde discurso com compromisso e aplauso com legitimidade permanente.
O poder passa. Os cargos acabam. As alianças se desfazem. Mas as palavras pronunciadas diante do eleitor permanecem registradas, assim como as atitudes tomadas quando chega a hora de demonstrar coerência.
No fim, não é a quantidade de bandeiras levantadas em uma campanha que determina a dimensão de um compromisso com o Brasil. É aquilo que cada liderança faz quando os votos são contados, o resultado é conhecido e o país espera que seus representantes assumam as consequências de suas escolhas.
Porque o verdadeiro teste de uma liderança não acontece somente quando ela pede votos. Acontece, sobretudo, quando o resultado não vem como esperado.
Edney Souto