O que prometia se tornar um dos processos mais explosivos da história recente da administração pública do Recife acabou mergulhado em silêncio institucional, cercado por suspeitas graves, decisões controversas e um desfecho que ampliou ainda mais a sensação de impunidade. Um conjunto robusto de denúncias que apontam para um suposto esquema milionário de desvios de recursos públicos, contratos irregulares, pagamentos em duplicidade e possível financiamento eleitoral ilegal foi abruptamente paralisado no Judiciário — justamente após o juiz responsável pelo caso ter o próprio filho nomeado em um concurso público da Prefeitura do Recife.
A coincidência entre a nomeação e o esfriamento do processo acendeu um alerta máximo entre juristas, órgãos de controle e observadores da cena política. O episódio passou a simbolizar algo que vai além de suspeitas administrativas: a fragilidade das instituições diante do poder político e a crescente percepção de que escândalos envolvendo cifras milionárias podem simplesmente ser engavetados sem explicações à sociedade.
As investigações vinham sendo conduzidas por uma força-tarefa que reunia o Ministério Público de Pernambuco (MPPE), o Ministério Público de Contas, o Tribunal de Contas do Estado (TCE-PE), o Tribunal de Contas da União (TCU) e a Polícia Federal. O foco eram contratos firmados pela Prefeitura do Recife a partir de 2021, primeiro ano da gestão do prefeito João Campos (PSB), especialmente na área de manutenção predial.
Segundo os órgãos de controle, esse tipo de contrato teria sido utilizado como fachada para uma engrenagem complexa de desvios, reajustes sem respaldo técnico, pagamentos duplicados e circulação irregular de dinheiro público. No centro do esquema aparece a Construtora Sinarco, empresa sediada em João Pinheiro, no interior de Minas Gerais, a mais de 1.500 quilômetros do Recife.
Sem sede, filial ou histórico operacional em Pernambuco, a empresa passou a firmar contratos milionários com diversas secretarias municipais, sobretudo Educação e Saúde, por meio de adesões a atas de registro de preços de consórcios mineiros. Embora o mecanismo seja legal, os órgãos de controle apontam uso abusivo, sem justificativa técnica plausível e com forte indício de direcionamento.
Mesmo sem estrutura local conhecida, a Sinarco assumiu obras de grande porte na capital pernambucana, incluindo a construção de escolas e unidades de saúde do zero. Para investigadores, o volume financeiro, a complexidade dos serviços e a ausência de capacidade operacional visível tornam difícil sustentar que tudo ocorreu sem o conhecimento do alto escalão da gestão municipal.
O cenário se torna ainda mais grave com a participação de empresas locais já contratadas pela Prefeitura, como a Alca Engenharia e a Max Construções. As apurações indicam que essas empresas atuavam simultaneamente nos mesmos equipamentos públicos, levantando a suspeita de que uma mesma obra teria sido paga duas vezes: primeiro como “manutenção predial” e depois como execução de novos serviços pela construtora mineira. Se confirmada, a prática configura dano direto ao erário.
Outro ponto considerado explosivo é o fato de os boletins de medição das obras terem sido assinados pelo mesmo engenheiro para as três empresas, reforçando a hipótese de que, apesar dos CNPJs distintos, elas integrariam um mesmo grupo econômico. Em 2024, ano eleitoral, esse conjunto de empresas faturou aproximadamente R$ 81 milhões, dado que levou investigadores a levantar a possibilidade de desvio de recursos públicos para abastecer campanhas políticas e estruturas eleitorais.
O Ministério Público de Contas também questiona reajustes milionários sem amparo contratual, como um pagamento de R$ 3,5 milhões feito à Sinarco em abril de 2024, além da possível utilização irregular de recursos federais do Sistema Único de Saúde (SUS). Esse ponto justificou a entrada do TCU e da Polícia Federal nas investigações. Técnicos apontam que os boletins de medição são frágeis, incompletos e incapazes de comprovar a efetiva execução dos serviços pagos.
Todo esse material foi reunido em uma representação interna de centenas de páginas do Ministério Público de Contas, que classificou as provas como suficientes para justificar auditorias aprofundadas e medidas duras para proteger o interesse público. O processo avançava, ganhava densidade e aumentava a pressão sobre o sistema político local — até ser abruptamente paralisado no Judiciário.
Foi nesse contexto que veio à tona a nomeação do filho do juiz responsável pelo caso em um concurso público da Prefeitura do Recife. A decisão foi amplamente vista como eticamente questionável e levantou suspeitas de conflito de interesses, lançando uma sombra pesada sobre a imparcialidade do magistrado. Pouco depois, o processo perdeu ritmo, decisões deixaram de ser proferidas e o escândalo, na prática, foi empurrado para o esquecimento institucional.
A reação veio de fora. Com a repercussão crescendo, críticas se intensificando e a imprensa nacional passando a tratar o caso com destaque, o prefeito do Recife se viu acuado. Na véspera do Ano Novo, sob forte pressão política e midiática, João Campos recuou e desnomeou o filho do juiz. Para críticos da gestão, o gesto não representou um simples ajuste administrativo, mas uma tentativa tardia de conter danos — interpretada por muitos como uma verdadeira confissão política de que a nomeação não se sustentava.
O recuo, no entanto, não encerra o caso. Pelo contrário, amplia o desgaste, reforça as suspeitas e recoloca no centro do debate a independência do Judiciário, a atuação dos órgãos de controle e a necessidade de transparência. A pergunta que ecoa não é apenas quem se beneficiou financeiramente do suposto esquema, mas se as instituições terão coragem de reabrir a gaveta, retomar as investigações e garantir que a lei valha para todos — inclusive para quem ocupa posições de poder e influência.
Enquanto isso, o Recife assiste a um dos maiores escândalos de sua história recente permanecer suspenso, cercado por silêncio e desconfiança, à espera de desdobramentos que a sociedade cobra — e que já não podem mais ser ignorados.