Prefeito divulga o programa Cisterna Cheia nas redes sociais, mas relatos de prestadores de serviço que cobram valores da Prefeitura colocam a gestão diante de uma pergunta incômoda: existem dívidas do ano passado que ainda não foram quitadas?
Em Bom Conselho, a propaganda da gestão municipal começa a encontrar uma pergunta que não pode ser respondida apenas com vídeos nas redes sociais: quem presta serviço à Prefeitura recebe em dia?
O prefeito Edézio Ferreira voltou a utilizar as redes sociais para divulgar o programa Cisterna Cheia, apresentando a disponibilização de dez carros-pipa como uma ação de sua administração. O abastecimento de água é, sem dúvida, uma necessidade importante para as comunidades rurais. O problema é que, enquanto o gestor aparece anunciando a iniciativa, pipeiros que afirmam ter trabalhado para o município estão cobrando pagamentos por serviços prestados.
A situação cria um contraste que merece explicações. De um lado, o prefeito investe na divulgação de uma ação que rende imagens, exposição e repercussão política. Do outro, prestadores de serviço relatam dificuldades para receber pelo trabalho realizado.
A pergunta é direta: existem débitos referentes ao fornecimento de água do ano passado que ainda estão pendentes? Se existem, por que esses profissionais continuam esperando? E qual é o planejamento financeiro da Prefeitura para honrar os compromissos assumidos?
O PASSADO FINANCEIRO VOLTA À DISCUSSÃO
A cobrança não surge em um cenário sem antecedentes. Em janeiro de 2025, a própria administração de Edézio Ferreira decretou calamidade financeira em Bom Conselho, informando uma dívida consolidada de aproximadamente R$ 44,9 milhões, dos quais quase R$ 10 milhões correspondiam a restos a pagar registrados até dezembro de 2024.
O assunto das contas públicas, portanto, não é novidade na cidade.
Dados da execução orçamentária de 2026, disponíveis em levantamento baseado nas informações encaminhadas ao Tesouro Nacional, também mostram que, até o quarto bimestre, a Prefeitura havia liquidado aproximadamente R$ 157,8 milhões em despesas e pago R$ 147,37 milhões. A diferença de cerca de R$ 10,44 milhões representa despesas liquidadas ainda não pagas naquele recorte, considerando o conjunto das despesas municipais, e não especificamente os serviços dos pipeiros.
É justamente por isso que a administração precisa apresentar informações claras sobre os contratos de abastecimento, os serviços efetivamente realizados e os pagamentos pendentes.
PROPAGANDA NÃO SUBSTITUI PAGAMENTO
O programa Cisterna Cheia já aparecia nas publicações oficiais da Prefeitura em dezembro de 2025, quando a gestão anunciava a ampliação da iniciativa para atender famílias da zona rural. Agora, com a divulgação de dez carros-pipa, a população tem o direito de saber como funciona a operação e quem está sendo contratado para executá-la.
Não basta anunciar água chegando às comunidades. É necessário garantir que os trabalhadores responsáveis pelo transporte também recebam pelos serviços prestados.
Edézio Ferreira tem investido na exposição de suas ações e na construção de uma imagem pública nas redes sociais. Mas a administração municipal não pode ser avaliada apenas pela qualidade dos vídeos, pela quantidade de publicações ou pela capacidade de produzir anúncios.
O que importa, no final das contas, é a execução dos serviços, a responsabilidade com o dinheiro público e o respeito aos fornecedores e trabalhadores.
Se os pipeiros estão cobrando, a Prefeitura precisa responder. Se existem débitos antigos, precisa explicar por que continuam pendentes. Se os pagamentos já foram realizados, basta apresentar os comprovantes.
NA LUPA: Dez carros-pipa podem render belas imagens para as redes sociais do prefeito. Mas a pergunta que fica em Bom Conselho é muito mais simples: antes de anunciar novos serviços, a Prefeitura já acertou as contas com quem trabalhou e ainda espera receber?
Porque governar não é apenas aparecer na fotografia entregando água. É também cumprir os compromissos assumidos com quem faz o serviço acontecer.