Por Blog do Edney
A nova pesquisa do Instituto Múltipla, divulgada nesta quinta-feira (27), traz um recado que a oposição certamente preferia não receber: Raquel Lyra continua na frente e João Campos não conseguiu virar o jogo.
No cenário estimulado, a governadora aparece com 43%, contra 37% de João Campos. São seis pontos de vantagem.
Pode parecer pouco para quem olha apenas para a margem numérica. Politicamente, porém, o cenário começa a incomodar.
E incomoda porque a campanha de João Campos entrou no jogo apostando alto na força do Recife, no peso do lulismo e na estrutura política do PSB. O problema é que Pernambuco não termina na Avenida Agamenon Magalhães.
E é justamente no interior que Raquel vem construindo uma vantagem que pode fazer toda a diferença.
O PROBLEMA DE JOÃO É QUE RECIFE NÃO ELEGE GOVERNADOR
O dado mais incômodo para o PSB está no mapa eleitoral.
No Recife, João Campos é forte e chega a 51%, enquanto Raquel tem 32%. É uma vantagem expressiva.
Só que eleição para governador não é eleição para prefeito do Recife.
Quando a pesquisa sai da capital, a conversa muda.
No Agreste, Raquel aparece com 55% contra 27% de João. Na Zona da Mata, são 49% contra 35%. No Sertão, a governadora também aparece à frente, com 40%, contra 36% do socialista.
É aí que mora o problema estratégico de João.
Ele precisa transformar uma liderança muito forte na capital em uma votação competitiva no conjunto do Estado.
Raquel, ao contrário, não precisa necessariamente ganhar no Recife. Precisa evitar uma derrota muito grande e continuar fazendo aquilo que vem fazendo no interior: acumulando votos.
E eleição majoritária é soma.
JOÃO CAIU MAIS
Outro número que merece atenção é a evolução da pesquisa.
No levantamento anterior do Múltipla, João Campos tinha 41%. Agora aparece com 37%.
Raquel também caiu, passando de 45% para 43%.
Mas há uma diferença importante: João perdeu quatro pontos, enquanto Raquel perdeu dois.
Ou seja, os dois oscilaram para baixo, mas o socialista sofreu uma queda maior.
Isso desmonta, pelo menos por enquanto, a expectativa de que a entrada definitiva da campanha colocaria João em trajetória de crescimento.
Não colocou.
Pelo contrário: a fotografia atual mostra Raquel administrando uma vantagem enquanto João corre atrás.
E NO SEGUNDO TURNO?
Aqui está outro banho de água fria para quem esperava uma virada rápida.
No confronto direto, Raquel aparece com 47%, contra 41% de João Campos.
Novamente, seis pontos.
Ou seja: quando os demais nomes desaparecem da disputa e o eleitor precisa escolher entre os dois principais candidatos, Raquel continua na frente.
Isso é politicamente relevante.
Porque uma das apostas do campo de João era justamente a ideia de que, num eventual segundo turno, a oposição se unificaria e a força do lulismo poderia produzir uma virada.
A pesquisa não mostra isso.
Pelo menos por enquanto, Raquel entra no segundo turno hipotético na frente e João continua tendo que buscar votos para alcançá-la.
A APROVAÇÃO É A ARMADURA DE RAQUEL
Outro dado que ajuda a explicar a resistência da governadora é a avaliação de sua gestão.
Raquel tem 65% de aprovação.
São 46% classificando o governo como ótimo ou bom, enquanto 33% consideram regular e 17% avaliam como ruim ou péssimo.
Para uma governadora em busca da reeleição, esse número é um patrimônio político considerável.
A oposição pode atacar, questionar obras, criticar prioridades e tentar desconstruir a gestão. Mas existe um obstáculo objetivo: 65% dos entrevistados dizem aprovar o governo.
E transformar aprovação em rejeição eleitoral não é tarefa simples.
RAQUEL TEM UM EXÉRCITO DE PREFEITOS E UM MAPA MAIS FAVORÁVEL
Há ainda uma dimensão política que não aparece completamente nos números.
Raquel vem ampliando sua rede de prefeitos e lideranças pelo interior. Isso significa estrutura, presença territorial, palanque e capacidade de mobilização.
João tem o Recife como uma fortaleza eleitoral e uma máquina política respeitável. Mas a governadora vem tentando transformar o interior em uma espécie de cinturão eleitoral.
E, até agora, os números sugerem que a estratégia está funcionando.
A conta de Raquel é territorial. A de João ainda é muito concentrada.
O socialista precisa furar esse bloqueio.
OS 11% QUE PODEM MEXER NO JOGO
Também seria um erro declarar a eleição decidida.
Ainda existem 11% de indecisos.
É gente suficiente para alterar significativamente o cenário.
Além disso, 5% dizem votar branco ou nulo e 2% não responderam.
Portanto, existe gordura eleitoral para os dois lados.
O problema de João é que ele precisa crescer mais rapidamente.
Raquel, neste momento, joga com uma vantagem confortável: lidera, tem aprovação elevada e apresenta força em regiões onde uma candidatura ao Governo de Pernambuco precisa necessariamente ser competitiva.
O PSB PRECISA ACENDER A LUZ AMARELA
Se os números forem confirmados por outras pesquisas, o PSB terá que rever algumas certezas.
A primeira é acreditar que a força de João no Recife seria suficiente para compensar qualquer dificuldade no interior.
A segunda é imaginar que a transferência de votos do campo nacional automaticamente resolveria a eleição estadual.
Não resolve.
Pernambuco tem suas próprias contas.
Tem prefeito, vereador, deputado, obra, estrada, hospital, emprego, liderança local e, principalmente, memória eleitoral.
João Campos pode até continuar favorito em Recife, mas Raquel está mostrando que pretende ganhar Pernambuco fora do Recife.
E isso muda completamente o jogo.
NA LUPA
A pesquisa Múltipla não significa que Raquel ganhou a eleição.
Ainda faltam muitos dias, muita campanha e muito voto para entrar na urna.
Mas também seria ingenuidade tratar os números como mera fotografia sem importância.
Raquel está na frente. João está atrás. E a distância permanece em seis pontos nos dois cenários principais.
Mais importante: João caiu mais que Raquel no intervalo entre as pesquisas.
O socialista precisa crescer no interior, reduzir a diferença e encontrar uma forma de transformar a enorme vantagem que possui no Recife em competitividade estadual.
Raquel, por sua vez, precisa fazer exatamente o contrário do que faria uma candidata desesperada: manter o ritmo, segurar sua base e impedir que João transforme o segundo turno em uma onda de mudança.
A eleição ainda está aberta.
Mas uma coisa já parece evidente:
João Campos não está disputando apenas contra Raquel Lyra. Está disputando contra um mapa eleitoral que, até agora, favorece a governadora.
E se o PSB continuar olhando para Pernambuco com os olhos de Recife, pode descobrir tarde demais que ganhar a capital é importante, mas para sentar na cadeira do Palácio do Campo das Princesas é preciso ganhar o Estado.